Intervencionismo do Ocidente amea

Intervencionismo do Ocidente amea
Apesar de refutada por Rússia e Egito, possibilidade de atentado terrorista contra o avião da Metrojet já faz empresas aéreas evitarem o Sinai

A possibilidade de que o avião da companhia russa Metrojet tenha sido derrubado pelo Estado Islâmico tem sido minimizada por todos os especialistas envolvidos no caso, tanto russos como egípcios. A aeronave caiu na península do Sinai, no Egito, pouco depois de levantar voo no Cairo neste sábado, matando 247 pessoas. Entretanto, o fato mostra o quanto o intervencionismo russo, a exemplo do norte-americano, tem colocado em risco as companhias aéreas do país ou aquelas que passam por ele.

Em julho do ano passado, um voo da Malaysia Airlines foi abatido por um míssil russo e caiu na Ucrânia, sendo até hoje controversa a responsabilidade pelo ato, se russa ou ucraniana. Este ano, a queda da aeronave russa no Egito e a reivindicação de atentado terrorista pelo principal grupo fundamentalista islâmico desta década, ainda que a hipótese seja refutada pelo Governo de Putin, coloca no mapa do terrorismo a aviação civil do país, a exemplo do que ocorreu com os Estados Unidos e suas empresas aéreas após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Voos de passageiros são um prato cheio para o terrorismo, visto que mobilizam a imprensa em torno da morte de cento e cinquenta a duzentos e cinquenta civis, o que permite a ampla divulgação das causas de seus responsáveis, além de difundir o medo na população ocidental, a qual eles consideram “o grande inimigo”. No caso específico deste fim de semana, a ação seria uma retaliação aos ataques russos contra as regiões dominadas pela milícia na Síria, onde a Rússia é aliada do Governo de Bashar al Assad.

Neste domingo, diversas companhias já cancelaram as rotas pelo Sinai, região do Egito onde o Metrojet caiu, entre elas as gigantes Lufthansa, Emirates e Air France. Isto mostra que, apesar das declarações do primeiro-ministro egípcio Sharif Ismail, que afirmou ser impossível uma milícia fundamentalista derrubar um avião em altura de cruzeiro, as empresas aéreas preferem acreditar que “o seguro morreu de velho”, ao menos neste caso.

Isto por quê? Por que todos sabem que a origem do movimento que consolidou o Estado Islâmico está no armamento fornecido pelo Ocidente aos rebeldes na Síria, que, entre outras coisas, tinham de se defender dos ataques da Força Aérea de Assad. Isto é, estão armados para atingir aeronaves, ainda que a altura de cruzeiro de um voo civil impeça, em teoria, um desses grupos rebeldes de atingir um Airbus A321 como o que caiu no Sinai. Pelo mesmo motivo, os Estados Unidos proibiram as empresas do país de sobrevoarem regiões recentemente ocupadas, como o Iraque e o Afeganistão, e a rede britânica BBC organizou recentemente uma lista com as regiões mais perigosas do mundo para a aviação civil, entre elas a Ucrânia, norte da África, Oriente Médio em geral e a Coreia do Norte.

A impossibilidade de lutar contra o intervencionismo militar do Ocidente encoraja os fundamentalistas islâmicos a investir contra a população civil dos países considerados “inimigos” há mais de vinte anos, em atos muitas vezes justificados como uma resposta ao sofrimento imposto pelo Ocidente, o que passa por questões variadas, como as intervenções militares, o apoio ao Estado de Israel e a discriminação aos muçulmanos que vivem na Europa. Não se faz distinção entre civis, militares e as medidas de Governo, ao contrário do que acontece com Cuba ou Coreia do Norte, regimes que se opõem ao modelo econômico capitalista que predomina no Ocidente, mas hoje incentivam a população a tolerar a cultura e os hábitos das pessoas comuns dos países inimigos.

Diante disso, o perigo da crise no Oriente Médio, que é perene, mas acirrou-se desde a Primavera Árabe, em 2011, bate cada vez mais às portas da Europa e da América do Norte. Ao fornecer armamentos para as guerrilhas sírias, iraquianas ou afegãs, em diferentes períodos deste interminável entrave, as potências ocidentais não se dão conta de que o fundamentalismo, cedo ou tarde, se volta contra seus aliados de primeira hora, visto que Rússia, Estados Unidos ou Europa são, no fim das contas, braços diferentes de um inimigo em comum: a cultura ocidental que impede a propagação do islã como única religião verdadeira, assim como seu modelo de sociedade. Um contexto perigoso em que militares, civis e Governos fazem parte de um corpo único de adversários a serem eliminados.

Argentina

Por último, uma menção ao artigo dessa semana do escritor Mario Vargas Llosa no jornal espanhol El País, publicado neste domingo e intitulado “Peronismo: uma esperança argentina”, em que ele lista as incoerências do peronismo, que, no discurso, flerta com a justiça social, mas na prática é uma rede de oligarquias e simpatizantes do autoritarismo (militar, inclusive), que faz do trabalhismo uma ferramenta de acesso ao poder, muito mais do que um real canal de diálogo com os trabalhadores.

No que pese o fato de Vargas Llosa ser um simpatizante do modelo econômico liberal, e portanto naturalmente propenso a atacar todos os Governos socialistas da América Latina, é importante frisar o quanto há mais argumentos contra o kirchnerismo como um braço do peronismo, além dos deliberados ataques por “corrupção” e da sabotagem econômica que existem no Brasil e outras nações sul-americana. Semana passada o PMinas debateu este tema em “Falta de avanços pode interromper projeto dos Kirchner”.

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