Durval

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Leia o artigo de Durval Ângelo para esta terça-feira

 Quando um senhor de sorriso fácil pôs na cabeça um boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em outubro passado, a multidão que assistia à cena em cerimônia no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Tuca) foi ao delírio. Não era para menos. Aquele personagem era Dom Paulo Evaristo Arns, que, que mostrava mais uma vez o compromisso assumido por aquele gigante emcorpo franzino com as lutas sociais, com os pobres, com a reforma agrária e com as transformações sociais que o movimento ao qual se refere a peça de vestuário defende e reivindica.

Aquela homenagem pelos 95 anos do Cardeal da Esperança era mais um momento de coroamento de uma vida dedicada à luta contra as injustiças e a favor dos oprimidos. Luta que ganhou destaque no Brasil e no mundo durante a ditadura militar no Brasil. Dom Paulo chegava a ir pessoalmente às delegacias e carceragens ao receber notícias sobre prisões, torturas ou assassinatos de militantes que combatiam as trevas impostas ao País por aquele regime.

 

Sua luta contra as atrocidades da ditadura chegou ao apogeu com a iniciativa de desenvolver, ao lado do reverendo Jaime Wrigth, o projeto Brasil: Numa Mais. Realizado de forma clandestina com base na pesquisa em cerca de 1 milhão de páginas de centenas de processos movidos pelo governo militar contra presos políticos, o projeto se tornou a mais completa e detalhada radiografia dos assassinatos, torturas e outras violações de direitos humanos nas ditaduras militares da América Latina.

E foi assim que o franciscano Dom Paulo se postou durante a vida: contra todas as formas de opressão, físicas, econômicas, sociais, e em defesa daqueles que mais precisavam. Como arcebispo de São Paulo – cargo que assumiu em 1970, nomeado pelo Papa Paulo VI –, instituiu a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, participou da criação das pastorais Operária, da Moradia e da Criança, esta última implantada com a ajuda da irmã, a pediatra Zilda Arns. E sempre teve atuação voltada em benefício dos trabalhadores e dos mais pobres, principalmente da periferia, onde se dedicou à formação de comunidades eclesiais de base.

Sua luta contra a injustiça não cessou com o avanço da idade, que o levou a renunciar à Arquidiocese de São Paulo em 1998. A própria homenagem realizada em outubro passado no Tuca por seus 95 anos se transformou em um ato contra os retrocessos nos direitos sociais promovidos pelo governo do presidente Michel Temer. Postura condizente com a vida que teve, como afirmou o Papa Francisco em mensagem após a morte. “(Dom Paulo) se revelou autêntica testemunha do Evangelho no meio do seu povo, a todos apontando a senda da verdade na caridade e do serviço à comunidade em permanente atenção pelos mais desfavorecidos”, diz a mensagem lida na mesma catedral em que o cardeal desafiou mais de uma vez a ditadura militar ao celebrar cultos ecumênicos em memória de Santo Dias da Silva, Alexandre Vannucchi e Vladmir Herzog. Com tema baseado no mandamento “não matarás”, este último contou com cerca de 8 mil pessoas e se tornou o maior ato público contra o regime militar.

E, com tais posturas, o Cardeal da Esperança teve influência na própria criação do Partido dos Trabalhadores, com quem sempre partilhou as lutas. “Dom Paulo deixou sua marca na vida de milhares de militantes políticos e sociais da resistência democrática aos anos de chumbo da ditadura, muitos dos quais devem a ele a vida, a integridade física e moral e as condições para continuar lutando. Sua presença solidária nunca será esquecida pela geração de sindicalistas, trabalhadores do campo e da cidade, moradores das periferias urbanas e dirigentes de movimentos sociais que se forjou naquele período histórico, e que tanta influência teve na construção de nosso Partido nos anos 80”, afirmou em nota a direção do PT. Por tudo isso e muito mais, volto à mensagem do Papa Francisco: “Dou graças ao Senhor por ter dado à Igreja tão generoso pastor”!

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