Durval

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Leia o artigo de Durval Ângelo para o PMinas

Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, lá nas margens do grande e mítico Rio Araguaia, na divisa do Mato Grosso com o Pará, marca, com sua atuação nas últimas cinco décadas, a Igreja da Resistência no Brasil. Marcou nos idos da ditadura militar e marca hoje, na ditadura midiática/econômica/liberal. Este é o seu grande traço de vida: resistir para construir o Reino de Deus, a partir dos pobres e excluídos na ordem vigente.

Espanhol, ele nasceu na Catalunha, em Balsareny, província de Barcelona, em 1928. Da ordem religiosa Claretiana, veio para o Brasil em 1968 e se tornou bispo em 1971. É um dos grandes expoentes da Teologia da Libertação, do diálogo cristão com o marxismo, da Igreja dos pobres da América Latina, da causa indígena e da reforma agrária. Como sempre ressalto, Pedro é o prelado de todos nós, cristãos brasileiros comprometidos com a transformação social, com as lutas de libertação do povo, com a mística revolucionária de Jesus de Nazaré.

Há alguns anos, a convite da Associação de Solidariedade a Pere Casaldáliga e São Félix do Araguaia, estive, com minha filha Maria Júlia, na Catalunha, em palestras e encontros com militantes da Associação, do Comité de Solidaridad Oscar Romero e de outros movimentos sociais de solidariedade ao Terceiro Mundo. Na ocasião, pude constatar que Pedro é um dos “catalanos” mais famosos e queridos. Sua vida é tema de teses acadêmicas, biografias de grande vendagem e até de um filme que registra suas grandes causas, seu compromisso com os pobres e sua mística revolucionária.

Talvez poucos saibam, mas Pere Casaldáliga i Pla – este é seu nome de batismo, em catalão – é também considerado um dos grandes poetas espanhóis, autor de uma antologia preciosa, em português, catalão e espanhol. Grande admirador de sua obra, aguardo com expectativa seus escritos de Natal: mensagens, poemas, cartas aos amigos que publica todos os anos no tempo do Advento. Faço questão de compartilhá-los com minha família e com os amigos das Minas: tanto os que vivem nas Gerais, como os amigos das Minas que estão pelo mundo afora. A mensagem deste ano faz-se mais do que atual, ao resgatar o sentido natalino de resistência à exploração e à opressão.

 

Que seja Natal, o verdadeiro.

As barbas crescidas e brancas,

e os supermercados do consumismo,

devem ficar à margem

E nós devemos plantar-nos no meio do egoísmo

e negar-nos à profecia absurda,

para abrir espaço ao choro e ao canto da solidariedade

e ao grito dos pequenos e excluídos.

Que seja verdade tudo o que falamos na liturgia e no folclore.

Que seja um Natal das raízes de Belém,

o Mistério da Encarnação chamando-nos para fazer o Reino dia a dia

Que seja Natal, que não percamos nós o Natal.

A poesia do “profeta” Casaldáliga vai ao encontro do que expressa o profeta Isaías (9,2) no pré-Natal do Primeiro Testamento, ao prenunciar a vinda do Messias: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz, uma luz que raiou para os que habitavam na terra sombria como a da morte.” Ambos afirmam que os que choram hão de enxergar uma forte luz. A metáfora vale para o momento atual em nosso país, quando o governo golpista intensifica o desmonte das políticas de direitos e inclusão social criadas nos últimos 14 anos e impõe o sofrimento aos mais pobres, protagonizando um retrocesso nunca visto na história do Brasil.

Em tão curto espaço de tempo, não foram poucos os retrocessos sinalizados: idade mínima de 65/70 anos para a aposentadoria, flexibilização das leis trabalhistas, terceirização, corte de milhares de benefícios do auxílio-doença, encolhimento de programas de inclusão que mudaram a cara deste país, como o bolsa-família e o Minha Casa, Minha Vida, além do teto para os gastos públicos, que deverá paralisar por 20 anos políticas sociais e investimentos em áreas essenciais, como saúde, segurança e educação.

A educação, por sinal - ponte de partida, percurso e chegada dos Governos Lula e Dilma –, talvez seja a área mais afetada por esse desmonte.  Aos poucos, vão sendo varridos das políticas públicas programas como o de cotas nas universidades, o Prouni e o Ciência Sem Fronteiras. Isso, sem contar a famigerada Reforma do Ensino Médio, que visa retirar do currículo do ensino público disciplinas essenciais à formação do pensamento crítico. O objetivo é evidente: formar mão de obra e não cidadãos pensantes. Não sem motivos, os estudantes foram às ruas e ocuparam as escolas, dando aos mais velhos um verdadeiro exemplo de resistência.

Mas a exploração e a dominação não são chagas exclusivas dos tempos atuais. Não são poucas as passagens na Bíblia que relatam o sofrimento do povo humilde. Essas, via de regra, são sempre acompanhadas de mensagens de incentivo à resistência e à resiliência, com a promessa de que um novo tempo virá. No Segundo Testamento, Paulo, na Carta aos Romanos (13, 11-12), fala-nos dessa resistência e incita os cristãos a acordarem para que possam vivenciar o verdadeiro Natal: “Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das trevas e vistamos as armas da luz.”

Também Dom Pedro nos convida, neste tempo de resistência, a viver o Mistério da Encarnação na busca do verdadeiro Natal. Não o do supermercado, do shopping, do desperdício e exagero, ou o da lenda de um Papai Noel com barbas brancas, criada pela sociedade de consumo. Mas o Natal que tem raízes em Belém. O da solidariedade e de escuta do grito dos “pequenos” e excluídos.

Dom Pedro exemplifica com sua vida o verdadeiro sentido do Natal. Brasileiro por merecimento, aqui sofreu ameaças, atentados à sua vida e muitas doenças tropicais que, aos poucos, foram aquebrantando sua saúde. Sempre com bom ânimo, jamais recuou, enfrentando os poderosos em nome da libertação dos “pequenos”, sobretudo dos povos indígenas, verdadeiros donos desta terra brasilis. Pere nos ensina que os tempos messiânicos, de espera, de advento, de vinda do Deus Menino, serão sempre tempos de resistência.

Como nos diz, em versos, o poeta alemão Bertolt Brecht, “é preciso mudar o mundo e depois, mudar o mundo mudado”. Por isso, a resistência será sempre a palavra de ordem daqueles que lutam por um mundo de justiça e inclusão. Assim, a todos que nos acompanharam este ano, faço um apelo: “que não percamos nós o Natal”.

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