Durval

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Leia o artigo de Durval Ângelo sobre Dona Marisa

Dia 22 de setembro de 2016. Agentes da Polícia Federal realizam mais uma prisão arbitrária, dentre as tantas da Lava Jato. Trata-se da sua 23ª fase, denominada Operação Zelotes, e desta vez, o cenário do espetáculo midiático é o Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sai de lá, conduzido pelos policiais, o ex-ministro do Planejamento e da Fazenda nos governos de Lula e Dilma, Guido Mantega, que acompanhava sua esposa para uma cirurgia de tratamento de um câncer.

Realizada sob os holofotes da imprensa golpista, com direito até a helicóptero da Globo na cobertura, a prisão decretada pelo juiz "justiceiro" repercutiria muito mal, visto que totalmente injustificada, como afirmaram vários juristas. Poucas horas depois, seria revogada pelo próprio Sérgio Moro. "O padrão da 'lava jato' é algemas fáceis", afirmou à revista Carta Capital, à época, o doutor em direito penal Alberto Zacharias Toron. Verdade. Primeiro prendem, depois perguntam, em um modus operandi capaz de fazer inveja às ações da Gestapo.

Disseram que Mantega havia recebido recursos da corrupção e que estes teriam irrigado os cofres do PT. Provas? Ninguém sabe, ninguém viu. Da mesma forma que não existiam, quando ele foi acusado, em 2015, de modificar decisões do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF). O inquérito foi concluído há poucos dias, sem que Mantega fosse indiciado. Mas pouco se falou disso na imprensa, é claro.

Lembramos desse episódio, quando milhões no país choram a morte de Dona Marisa Letícia, para demonstrar que ela está entre as muitas vítimas de uma mentalidade nazifascista que se alastra em nossa sociedade, estimulada por setores da direita e do Judiciário. Vítima de um AVC, com o quadro agravado por uma trombose, Dona Marisa foi submetida a coma induzido. Enquanto lutava pela vida, a desumanidade corria à solta nas redes sociais e até em manifestações na porta do Hospital Sírio Libanês, onde estava internada.

Sem qualquer pudor, aqueles que se autodenominam cidadãos de bem satirizavam e desejavam a morte daquela mulher, esposa e mãe, cujo único crime foi ter sido o esteio emocional e moral de um presidente que ousou governar para os pobres. Ética? Para quê? Uma médica divulgou dados sigilosos do estado de saúde da paciente, enquanto outro "doutor" prescreveu na internet a receita para que fosse assassinada: "Tem que romper no procedimento. Daí, já abre a pupila. E o capeta abraça ela." Inacreditável!

Marisa Letícia foi caluniada, injustamente acusada, moralmente linchada. E contra ela, assim como contra Lula, também nada se provou. Sequer foram indiciados no famoso inquérito do triplex no Guarujá. Mas para muitos, isso tanto faz. Também nada foi comprovado em outras acusações ridículas, como a da compra de um pedalinho para o neto ou sobre o modesto sítio em Atibaia.

Ao passo que tucanos ilustres, como Aécio Neves e José Serra, são recorrentemente citados em delações, como recebedores de milhões em propinas, sem que sejam importunados. Somente a construtora Andrade Gutierrez teria repassado a Aécio  - o "Mineirinho" - cerca de R$ 40 milhões, em um esquema de fraude na construção da Cidade Administrativa, conforme divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo, no último dia 2.

Já Dona Marisa foi atacada e viu seu marido e filhos serem perseguidos. Ainda assim, manteve-se firme e discreta. Mulher do povo, sabia o que era resiliência, como narrou Frei Betto em um brilhante artigo sobre sua vida. Filha de um agricultor, estudou somente até a sétima série. Começou a trabalhar ainda menina, como babá, e aos 13 anos, tornou-se operária. Casou-se com um motorista de caminhão, assassinado seis meses depois, deixando-a grávida do primeiro filho. Anos depois, casou-se com Lula, com quem teve três filhos. Em 1980, teve o marido preso pela ditadura, por 31 dias.

"Marisa não tem a vocação política de Lula, mas sua aguçada sensibilidade funciona como um radar que lhe permite captar o âmago das pessoas e discernir as variáveis de cada situação. Por isso, é capaz de dizer a Lula verdades que o ajudam a não se afastar de sua origem popular nem ceder ao mito que se cria em torno dele. A simplicidade talvez seja o predicado que ela mais admira nas pessoas", definiu Betto.

Após anos de luta e resistência, porém, a guerreira não suportou a pressão. Virou estrela e  a ela não mais se fará justiça. Sim, Dona Marisa é vítima. Vítima da intolerância e do preconceito às classes populares. Da criminalização da política e dos movimentos sociais. Da perda de direitos e do desrespeito à Constituição. É vítima do golpe financiado pelas elites, que com o apoio de setores do Judiciário, instalou no governo deste país uma verdadeira quadrilha. Impossível não acrescentar sua morte à cota de culpa da direita suja, da mídia vendida e de um STF omisso.

Nossa solidariedade a Lula e a toda a família. Que este triste episódio sirva de lição para que nossas instituições, especialmente o Poder Judiciário, repensem seu papel e não mais se coloquem a serviço de injustas perseguições, como a que sofre o ex-presidente Lula. Sobretudo, que sirva de alerta ao povo brasileiro para a necessidade urgente de se repensar o Brasil. Quantas Marisas mais ainda terão que tombar?

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