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“Eis um texto escrito em fins do século 19 que continua atual. Por sua defesa veemente da igualdade entre os gêneros, 'Reivindicação dos Direitos da Mulher' pode ser considerado o documento fundador do feminismo. Publicado em 1792, em resposta à Constituição Francesa de 1791, que não incluía as mulheres na categoria de cidadãs, o livro denuncia os prejuízos trazidos pelo enclausuramento feminino na exclusiva vida doméstica e pela proibição do acesso das mulheres a direitos básicos, em especial à educação formal, situação que fazia delas seres dependentes dos homens, submetidas a pais, maridos ou irmãos”, aponta Maria Lygia Quartim de Moraes

Dois livros importantes para entender o feminismo e as lutas relacionadas às mulheres chegaram recentemente às livrarias brasileiras: “Reivindicação dos Direitos da Mulher”, de Mary Wollstonecraft, e “Imprensa Feminina e Feminista no Brasil – Século 19”, de Constância Lima Duarte.

O primeiro, que ganha nova edição comentada feita pela Boitempo, é considerado um dos textos fundadores do feminismo em todo o mundo e serviu de base para o trabalho de nomes de extrema importância na área, como a francesa Simone de Beauvoir. Lançado em 1792, em meio à Revolução Industrial, “Reivindicação dos Direitos da Mulher” fala sobre a exclusão das mulheres a direitos básicos na sociedade inglesa ao longo do século 18.

Mary Wollstonecraft, a autora, dedicou parte de sua vida a questões feministas, participou da Revolução Francesa e defendeu o amor livre. Teve seu primeiro filho ainda solteira, era contra a obrigatoriedade do casamento e morreu logo após o parto de sua segunda cria, Mary Shelley, que também se tornaria escritora de sucesso graças a “Frankenstein”. Outra bandeira cara a Wollstonecraft era o fim da escravidão.

“Eis um texto escrito em fins do século 19 que continua atual. Por sua defesa veemente da igualdade entre os gêneros, 'Reivindicação dos Direitos da Mulher' pode ser considerado o documento fundador do feminismo. Publicado em 1792, em resposta à Constituição Francesa de 1791, que não incluía as mulheres na categoria de cidadãs, o livro denuncia os prejuízos trazidos pelo enclausuramento feminino na exclusiva vida doméstica e pela proibição do acesso das mulheres a direitos básicos, em especial à educação formal, situação que fazia delas seres dependentes dos homens, submetidas a pais, maridos ou irmãos”, aponta Maria Lygia Quartim de Moraes, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Unicamp, no prefácio da obra.

Feminismo no Brasil

Já “Imprensa Feminina e Feminista no Brasil – Século 19”, por sua vez, como o próprio título indica, é um estudo sobre as publicações nacionais voltadas às mulheres e suas causas ao longo do século retrasado. A obra é o resultado de anos de pesquisa de Constância Lima Duarte, que, em seu pós-doutorado realizado na Universidade Federal de Santa Catarina e na Universidade Federal do Rio de Janeiro, debruçou-se sobre o tema “Literatura e Feminismo no Brasil: Trajetória e Diálogo”.

O resultado é uma espécie de enciclopédia que elenca 143 publicações voltadas para mulheres durante o período retratado. São título como “O Espelho Diamantino”, “O Despertador das Brasileiras”, “O Bello Sexo” e “República das Moças”. As pesquisas mostram que esses periódicos tinham linhas distintas de discursos. Enquanto alguns incentivavam as mulheres a lutarem por direitos como o acesso à educação, outros preferiam pregar que permanecessem ignorantes e submissas aos homens.

“A literatura, a imprensa e a consciência feminista surgiram praticamente ao mesmo tempo no Brasil, nas primeiras décadas do século 19 […]. Quando as primeiras mulheres tiveram acesso ao letramento, imediatamente se apoderaram da leitura, que por sua vez as levou à escrita e à crítica. […] A leitura lhes deu consciência do estatuto de exceção que ocupavam no universo de mulheres analfabetas, da condição subalterna a que o sexo estava submetido, e propiciou o surgimento de escritos reflexivos e engajados, tal a denúncia e o tom reivindicatório que muitos deles ainda hoje contêm. Mais do que livros, foram os jornais e as revistas os primeiros e principais veículos da produção letrada feminina, que desde o início se configuram em espaços de aglutinação, divulgação e resistência”, aponta a autora na apresentação do livro.

A Autêntica, responsável pela publicação da obra, já prepara o segundo volume de “Imprensa Feminina e Feminista no Brasil”, que abordará as publicações do século 20 – até o momento, cerca de 300 títulos já foram levantados pela autora.

Da Página Cinco, do UOL

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